É isso que se quer para o país?

Teresinha Oliveira Machado da Silva – Presidente

      No último dia 23 de julho, em pleno recesso escolar, o Ministério da Educação lançou uma convocatória para o “Dia D” da Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio (BNCC). O plano seria realizar uma “consulta pública” a fim de promover aprimoramentos no documento em 28 mil escolas do Brasil, das redes públicas e particulares,  no dia 2 de agosto, uma semana depois do anúncio, o que não foi eficaz. Uma consulta sem poder deliberativo, que na prática significa uma máscara para encobrir um dos maiores ataques à educação pública dos últimos anos.

      Este dia de debate nas escolas foi interpretado por grande parte dos professores como uma farsa, uma forma de tentar abafar uma medida autoritária, tendo em vista que professores, os agentes mais importantes do processo educacional, não possuem nenhum direito deliberativo, trata-se apenas de uma consulta e , conforme já esperávamos, não houve debate. O que foi para as escolas foi um filme produzido pelo governo, que faz uma leitura rasa da BNCC e não traz os fundamentos da base curricular que não tem legitimidade

       A pretensão de discutir as mais de 150 páginas do documento em um  único dia, com meio milhão de professores, atesta o que já sabíamos. O governo não quer conversar com educadores (as) sobre educação pública.

     Essa discussão não pode ficar entre quatro paredes e tampouco ser reduzida a um dia de debates inócuos e orientados por quem ataca a escola pública. É preciso ampliar o conhecimento sobre as reais consequências e intenções da BNCC e da Reforma do Ensino Médio para o conjunto da sociedade. Precisamos envolver toda a comunidade escolar, incluindo pais, alunos(as) , professores e os demais agentes envolvidos no processo educacional , na defesa de uma educação pública, gratuita e de qualidade, com gestão democrática e comprometida com a formação integral do cidadão.

   Discussões sobre currículo exigem tempo, leitura, estudo, reflexão e diálogo. Não podemos imaginar que a base transformadora em currículo vai possibilitar a melhora na qualidade de ensino se não houver condições adequadas para o professor, o que implica não só a valorização salarial, que é fundamental, mas condições concretas de infraestrutura e formação.

      Precisamos lutar contra a BNCC e a Reforma do Ensino Médio, pois a implantação dessas propostas aprofundará ainda mais as desigualdades sociais e educacionais no Brasil, negando a pluralidade, a diversidade e a democratização do conhecimento em nossas escolas.

    O governo se desresponsabiliza da formação integral e diversificada dos nossos jovens, gerando um empobrecimento curricular com a obrigatoriedade apenas de duas disciplinas: português e matemática, que também terão suas cargas horárias reduzidas, podendo parte delas ser ministrada a distância. As demais disciplinas não serão mais obrigatórias, podendo ser ofertadas a distância ou em módulos.

     Os direitos de aprendizagem devem expressar a capacidade do estudante de conhecer não só conteúdos, mas também de estabelecer relações e pensar sobre eles de forma crítica e criativa. Isso só é possível com referenciais teóricos e conceituais. Ao abandonar a atenção aos domínios conceituais próprios das diferentes disciplinas, a proposta do MEC não só dificulta uma visão interdisciplinar e contextualizada do mundo, mas pode levar à formação de uma geração de jovens pouco qualificados, manipuláveis, incapazes de criar e condenados aos trabalhos mais simples, cada vez mais raros e mal remunerados. É isso que se quer para o país?

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